sexta-feira, 3 de outubro de 2008

04 de outubro, Dia de São Francisco de Assis

Francisco, o Santo-Alegria

Tenho a impressão de que em nossos dias fala-se mais em felicidade do que em alegria. Sinto certa apreensão, pois isso representa certa banalização mais abrangente. Você entra numa lojinha qualquer para comprar um par de meias, ou umas cuecas e já sorridente vendedora o trata por "meu amor". Ser amado e feliz passou a ser uma obrigação universal. Pobres dos melancólicos, dos abatidos, dos deprimidos! Felicidade parece-me algo tão beatífico! Lembra conquista definitiva, realização, plenitude.

Não é muito fácil transformar a alegria em virtude, pois alegria parece constituir-se apenas de uma emoção primária agradável, fruto da posse de coisas desejadas. O problema está naquilo que se deseja. A alegria do Tio Patinhas por encontrar mais uma mina de ouro não é virtuosa, pois é fruto de sua desmedida cobiça e poderá incentivar outros a se entregarem ao materialismo.
Francisco, por sua vez, acabara de romper com o pai ganancioso e com a riqueza de que podia usufruir na família. Procurava em seu íntimo uma forma de viver mais de perto o ideal do Evangelho e do modo de ser do próprio Cristo. Segundo Tomás de Celano, ele exclama: "É isso que eu quero, isso que procuro, é isso que DESEJO DE TODO CORAÇÃO".

Ora, quem consegue conquistar "aquilo que deseja" de todo o coração, só pode experimentar uma alegria correspondente. É o que Jesus afirma ao comparar o Reino a um tesouro. Quem o encontrar abre mão de TUDO o que possui e, "cheio de alegria compra aquele campo" (Mt 13,44). Para chegar ao TESOURO, Francisco teve que perder tudo. Enquanto ia perdendo, já sentia o coração enchendo-se de alegria.

São Francisco está a uns cinco meses de sua morte. Seu corpo reduziu-se a uma ruína humana. Não consegue mais escrever. O sofrimento físico é atroz e torturante. Dita assim mesmo um testamento com suas últimas recomendações. Depois pede que Frei Leão escreva o que ele tem a dizer sobre aquilo que considera ser a ALEGRIA PERFEITA. Francisco imagina duas situações. Na primeira chegam mensageiros anunciando sucessos inimagináveis de sua Ordem nos mais diversos recantos da Terra. "Digo-te - afirma ele - que em tudo isso não está a verdadeira alegria". Na segunda Francisco imagina-se numa emergência hipotética. Ele próprio, o fundador da Ordem, volta para o conventinho da Porciúncula, "sua" casa-mãe, todo machucado, esgotado pela fadiga e quase morto pela mais violenta nevasca. Bate muitas vezes na porta. Por três vezes, o porteiro abre, xinga Francisco de todas as formas. Conclui o santo: "Pois bem, se eu tive tido paciência e permanecer imperturbável, digo-te que aí está a verdadeira alegria, a verdadeira virtude e salvação da alma".

Deus e Jesus Cristo tornam-se cada vez mais a única e avassaladora paixão de São Francisco. No altar desta paixão, ele sacrifica tudo, inclusive todos os outros possíveis projetos e desejos. É isso que ele entende por POBREZA. Sobra só um desejo irresistível: imitar em tudo seu Cristo-Paixão, sem sofrer menos que Ele "pela salvação de todos". Assim, Francisco desenvolveu uma blindagem protetora contra todas as adversidades, todas as injustiças, toda forma de sofrimento. Todo sofrimento é sempre invadido pela luz e significado que brotam de seu CRISTO-MODELO. Nesta comunhão, os contornos e as figuras de ambos se embaralham nossos olhos. Então toda sorte de sofrimentos simplesmente o fazem sentir-se mais perto, mais identificado com seu divino mestre e modelo, sua única paixão. Isso realimenta e purifica sua indefectível alegria.

Por isso seus contemporâneos afirmavam que Francisco era outro Cristo.


Frei Hipólito Martendal, OFM.

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